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Acolher para libertar: a urgência do cuidado psicológico no enfrentamento ao feminicídio e violência contra mulheres no Brasil

Os dados recentes do Mapa Nacional da Violência de Gênero ecoam como um grito de alerta que não podemos mais ignorar: 187 estupros por dia e aproximadamente 700 feminicídios apenas nos primeiros seis meses de 2025 no Brasil. Apenas na cidade de São Paulo, 166 mulheres foram assassinadas entre janeiro e agosto. Por trás de cada um desses números, há uma história, uma vida interrompida, uma família destruída. Essa estatística é a materialização brutal de uma cultura de violência que ainda trata a mulher como objeto e propriedade.

O aspecto mais aterrador dessa realidade, destacado pelos próprios dados, é que o perigo mora ao lado. Na maioria absoluta dos casos, o agressor não é um desconhecido em um beco escuro, mas sim o companheiro, o ex-marido, um parente ou alguém do convívio íntimo. Essa proximidade cria uma teia complexa de medo, dependência econômica e emocional, manipulação e isolamento que paralisa a vítima e torna quase impossível a ruptura do ciclo violento sozinha.

Sob a ótica da psicologia, entendemos que a violência de gênero é um processo insidioso. Ela raramente começa com um soco, inicia-se com um comentário depreciativo, o controle sobre as roupas, o afastamento dos amigos e familiares, o cerceamento da autonomia financeira – é a violência psicológica e moral pavimentando o caminho para a agressão física e que, em seu estágio final, leva ao feminicídio. A vítima, progressivamente desgastada e com sua autoestima aniquilada, entra em um estado de desesperança, acreditando não haver saída ou até mesmo merecer aquela situação.

É exatamente nesse espaço de terror silencioso que o acolhimento psicológico especializado se revela não apenas uma intervenção de saúde, mas uma estratégia de salvaguarda de vidas. O papel do psicólogo, neste contexto, é multifacetado e compreende diferentes aspectos de igual importância, que vão variar em intensidade e tempo para cada caso individual.

O primeiro passo é criar um espaço seguro e oferecer um ambiente de escuta empática e absolutamente sigilosa, onde a mulher possa externalizar sua experiência sem medo de julgamento ou retaliação, validando sua dor e suas percepções.

É preciso também desconstruir a culpa e trabalhar a conscientização de que há uma relação doentia entre agressor e vítima, e que as posições e atuações devem ser clarificadas. É comum que as mulheres se culpem pela violência sofrida e cheguem a se perguntar o que fizeram para “merecer” o tratamento violento. Desfazer essa narrativa é um ponto crucial do processo de recuperação da autoestima.

A etapa seguinte é restaurar a autonomia e devolver a voz e a atitude roubadas pela violência. A terapia atua no resgate da autoconfiança, da autoimagem e da capacidade de decisão, mostrando à mulher que ela ainda é dona de si e pode retomar as rédeas de sua vida para construir um novo futuro.

Por fim, é necessário fornecer suporte emocional e ferramentas práticas para que a mulher possa, quando se sentir segura e preparada, planejar sua saída da relação violenta, conectando-a com redes de proteção como delegacias, abrigos e assistência social.

Também mulheres que vivenciaram situações de violência no passado necessitam de escuta e acolhimento para conseguirem ressignificar seus traumas e encontrar novos sentidos em suas jornadas de superação.

Projetos como o Acolhida nascem dessa necessidade premente. Somos uma rede de profissionais movidos pela certeza de que o cuidado mental é um direito humano e um pilar vital no combate à violência. Ao oferecer atendimento online, sigiloso e gratuito, quebramos barreiras geográficas e de acesso, levando o acolhimento para dentro de casa de forma discreta e segura.

Não basta lamentar os números. É preciso agir antes que eles se concretizem em mais uma mulher agredida, em mais uma vida perdida. Precisamos, como sociedade, enxergar a violência psicológica como o alarme que ela é e fortalecer redes de apoio que ofereçam às mulheres não só a porta de saída, mas também o suporte necessário para que tenham forças para cruzá-la.

Acolher hoje é prevenir um feminicídio amanhã. É nosso dever ético e social garantir que nenhuma mulher precise enfrentar o horror sozinha.

Por isso, deixamos aqui um convite às mulheres que sofrem em silêncio, às que já romperam o ciclo, e às que podem ser rede de apoio para outras: não se calem, não se isolem, não desistam. Procurem ajuda, compartilhem sua dor, fortaleçam outras mulheres. Juntas, somos mais fortes. Juntas, podemos transformar dor em resistência, medo em coragem, e silêncio em voz. A mudança começa com um passo, e você não precisa dá-lo sozinha. Conte conosco.

Edna Levy