Jung e o Jogo de Areia
No capítulo “Confronto com o Inconsciente” de seu livro “Memórias Sonhos e Reflexões” (1961), Jung fala de um período de desorientação e incerteza interior, vivido em 1912, quando tinha 38 anos. Nesse período, seus sonhos o impressionavam muito, fazendo-o viver sob o domínio de uma pressão interna intensa que pensou tratar-se de perturbação psíquica. Por duas vezes, Jung passou em revista toda a sua vida, em todos os pormenores, detendo-se especialmente em suas lembranças da infância, pensando encontrar alguma coisa que pudesse ser a causa de uma possível perturbação.
Ao lermos esta passagem de suas memórias é inevitável uma associação com o Jogo de Areia:
“Mas esta introspecção foi infrutífera e tive que confessar a mim mesmo minha ignorância. Pensei então: “ignoro tudo a tal ponto que simplesmente farei o que me ocorrer”. Abandonei-me assim, conscientemente, ao impulso do inconsciente.
A primeira coisa que se produziu foi o aparecimento de uma lembrança da infância, talvez dos meus dez ou doze anos. Nessa época eu me entregara apaixonadamente a brinquedos de construção. Lembrei-me com clareza de que edificara casinhas e castelos, com portais e abóbadas, usando garrafas como suportes. Um pouco mais tarde, utilizei pedras naturais e terra argilosa como argamassa. Durante longos anos essas construções me haviam fascinado. Para minha surpresa, essa lembrança emergiu acompanhada de certa emoção.
“Ah, ah! Disse a mim mesmo, aqui há vida! O garoto anda por perto e possui uma vida criativa que me falta. Mas como chegar a ela?”
Parecia-me impossível que o homem adulto transpusesse a distância entre o presente e meu décimo primeiro ano de vida. Se eu quisesse, entretanto, restabelecer o contato com essa época de minha vida, só me restava voltar a ela acolhendo outra vez a criança que então se entregava aos brinquedos infantis.
Esse momento marcou um ponto crucial no meu destino. Só me abandonei a tais brincadeiras depois de repulsões infinitas, com um sentimento de extrema resignação e experimentando a dolorosa humilhação de não poder fazer outra coisa senão brincar. Pus-me, então, a colecionar pedras, trazendo-as da beira do lago ou de dentro d’água; depois comecei a construir casinhas, um castelo, uma cidade.
Nesta época, porém, faltava a igreja; comecei então uma construção quadrada… ora, uma igreja comporta também um altar. Mas algo em mim relutava em edificá-lo.
Preocupado em saber como resolveria este problema, passeava um dia, como de costume, ao longo do lago e recolhia pedras por entre o cascalho da margem. De repente, deparei com uma pedra vermelha, uma espécie de pirâmide de quatro lados, de uns quatro centímetros de altura… assim que a vi, soube que encontrara meu altar! Coloquei-a no meio sob a cúpula, e enquanto fazia isto me lembrei do falo subterrâneo do meu sonho de infância. Esta conexão despertou em mim um sentimento de satisfação.
Todos os dias depois do almoço, se o tempo permitia, eu me entregava ao brinquedo da construção. Mal terminada a refeição, “brincava” até o momento em que os doentes começavam a chegar; à tarde, se meu trabalho tivesse terminado a tempo, voltava às construções. Com isso meus pensamentos se tornavam claros e conseguia apreender de modo mais preciso fantasias das quais até então tivera apenas um vago pressentimento.
Naturalmente, eu cogitava acerca da significação de meus jogos e perguntava a mim mesmo: “Para falar a verdade, o que fazes? Constróis uma pequena colônia, e o fazes como se fosse um rito.”
Eu não sabia o que responder, mas tinha a íntima certeza de trilhar o caminho que levava ao meu mito. A construção representava apenas o início. Ela desencadeava toda uma seqüência de fantasmas que mais tarde anotei meticulosamente.
Situações deste tipo repetiram-se em minha vida. Sempre que me sentia bloqueado, em períodos posteriores, eu pintava ou esculpia uma pedra: tratava-se sempre de um “rite d’entrée” que trazia pensamentos e trabalhos“.
Jung C.G., Memórias, Sonhos, Reflexões, pág. 154 e 155
Biografia Cronológica
1875: Nasceu em Kesswil, cantão de Thurgau, Suíça, a 26 de julho de 1875. Seu pai, Paul A. Jung, era pastor da Igreja Reformada da Suíça. Seu avô paterno, do qual Jung recebeu o mesmo nome, segundo rumores que corriam na época, era filho ilegítimo do escritor Johann Wolfgang Goethe.
1879: A família muda-se para uma aldeia próxima de Basiléia quando Jung tinha 4 anos.
1895 – 1900: Estuda medicina na Universidade da Basiléia;
1900: É assistente de Eugen Bleuler, médico-chefe do Burghölzli (hospital psiquiátrico), em Zurique;
1902: Tese de doutoramento: “Sobre a psicologia e a patologia dos fenômenos ditos ocultos”;
1903: Em 1903 casa-se com Emma Rauschenbach.
1905 – 1909: Chefe de clínica no Burghölzli;
1905 – 1913: Professor na Faculdade de Medicina de Zurique; aulas de psicologia e psiconeuróses;
1906: Inicia-se a correspondência entre Freud e Jung, que era aluno e assistente de Bleuer e conhecera Freud em 1905.
1907: “Psicologia da Demência Precoce”; encontro com Freud;
1908: I Congresso Internacional de Psicanálise, em Salzburg na Austria; depois deste primeiro congresso, Abraham Arden Brill, organiza o “Colégio dos Doutores”, que se reune no apartamento de Freud, fazendo parte dele: Hanns Sacks, Sandor Ferenczi, Karl Abraham, Ernest Jones, Carl G. Jung, Karl Abraham, Abraham Arden Brill e Max Eitingon.
1909: Abertura de clínica particular; Freud e Jung são convidados por Standely Hall a participarem das comemorações do aniversário da “Clark University” em Massachusetts. Estavam também presentes Sandor Ferenczi, Ernest Jones e A.A.Brill. Nesta época Jung é considerado por Freud como o príncipe herdeiro da psicanálise.
1910 – 1914: Primeiro presidente da Associação Psicanalítica Internacional;
1913: Jung dá o nome à sua psicologia de “Psicologia Analítica” referindo-se ao resultado de seus estudos e ao método de análise deles decorrente; demissão de seu posto de ensino na Universidade de Zurique;
1914: Conferências em Londres e Aberdeen; é mobilizado para o serviço de saúde;
1916: “Sete Sermões aos Mortos” e “A Função Transcendente”; estudo sobre os gnósticos;
1918: Jung, Emma e os cinco filhos: Agathe, Anna, Franz, Marianne e Emma.
1918 – 1919: Comandante do campo de internação de Soldados ingleses; pintura de mandalas;
1921: “Tipos Psicológicos”;
1921-1926: Viaja pela África, América Central e Índia.
1923: Construção da torre perto do lago de Zurique;
1923: Jung trava amizade com Richard Wilhelm (tradutor do “I Ching – O Livro Das Mutações”);
1924 – 1925: Visita aos índios Pueblo do Novo México (EUA);
1925 – 1926: Expedição a Uganda, ao Quênia, às margens do Nilo; visita aos Elgonys, no Monte Elgon;
1928: “O Eu e o Inconsciente”;
1929: Comentários a “O Segredo da Flor de Ouro”;
1932: Prêmio de literatura em Zurique;
1933: Viagem ao Egito e à Palestina;
1934: Presidente da Sociedade Médica Geral para Psicoterapia;
1936: Doutor “honoris causa”, em Harvard (Massachussets);
1938: Viagem à Índia, a convite do governo britânico; presidente do Congresso Internacional de Psicoterapia, em Oxford; membro da Real Sociedade de Medicina;
1940: “Psicologia e Religião”;
1944: Nomeação para a cátedra de Psicologia da Faculdade de Medicina de Basiléia; “Psicologia e Alquimia”;
1945: Doutor “honoris causa” da Universidade de Genebra;
1948: Inauguração do Instituto C. G. Jung, em Zurique;
1952: “Sincronicidade” e “Resposta a Jó″;
1955: Morte de sua mulher Emma (30/03/1882-27/11/1955);
1955 – 1956: “Mysterium Conjunctionis”;
1957: Fundação da Sociedade Suiça de Psicologia Analítica. Publicação de Presente e Futuro.
1957: Nise da Silveira e Jung, em Zurique, no II Congresso Internacional de Psiquiatria na inauguração da exposição do Museu do Inconsciente.
1957 a 1959: Redação de “Memórias, Sonhos e Reflexões”, com Aniela Jaffé; entrevista na TV para a BBC;
1961: Termina, dez dias antes de morrer, um ensaio para “O Homem e Seus Símbolos”;
6 de junho de 1961: Morre em Küsnacht, à beira do lago de Zurique.
Fonte: Excertos retirados da Wikipedia http://wikipedia.org/wiki/carl_gustav_jung, 13/5/08 e Psicologia.org http://www.psicologia.org.br/internacional/artigo7.htm, em 09 de Maio de 2010 às 18:55.
Fonte das fotos:
Obras
- A Energia Psíquica.
- A Prática da Psicoterapia.
- A Vida Simbólica: Escritos Diversos.
- Ab-reação, análise dos sonhos, transferência.
- Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo.
- Cartas de Carl Gustav Jung.
- Escritos Diversos.
- Estudos Alquímicos.
- Estudos Experimentais.
- Estudos Experimentais, Vol. II.
- Estudos Psiquiátricos.
- Eu e o Inconsciente.
- Freud e a Psicanálise.
- Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade.
- Memórias, Sonhos e Reflexões. Autobiografia escrita em conjunto com Aniela Jaffé.
- Misterium Coniunctionis 1.
- Misterium Coniunctionis 2.
- Misterium Coniunctionis 3.
- O Desenvolvimento da Personalidade.
- O Homem e seus Símbolos. Obra para leigos, organizada por Jung e escrita por ele e seus colaboradores, com artigos de Aniella Jaffé, Marie-Louise Von Franz e outros.
- O Segredo da Flor de Ouro: Um Livro de Vida Chinesa.
- Os Arquétipos e o Inconsciente coletivo.
- Presente e Futuro.
- Psicologia da Religião Ocidental e Oriental.
- Psicologia do Inconsciente.
- Psicologia e Alquimia.
- Psicologia e Religião Oriental.
- Psicologia e Religião.
- Símbolo da Transformação na Missa.
- Símbolos da Transformação: Análise dos Prelúdios de uma Esquizofrenia.
- Sincronicidade.
- Tipos Psicológicos.
- A natureza da psique.
Fonte: http://pt.wikipedia.org em 13/05/08 às 18:26.
Videos
Jung fala sobre a morte
Fonte: EdenGTv
[http://www.youtube.com/watch?v=YOCywXmCv5o&feature=related]
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